domingo, 30 de agosto de 2009

Cântico Negro.

Francis Bacon - "Head VI" - 1949

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

("Cântico Negro". In: RÉGIO, José. Poemas de Deus e do Diabo. Porto: Brasília Editora, 1972.)

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Trilha Sonora do dia: "These Days", do Jackson Browne, na voz da Nico.


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Clássicos da Literatura, do Cinema e da Música.

“Poliana”, da escritora norte-americana Eleanor H. Porter , é um dos maiores clássicos da literatura mundial e vem encantando gerações desde 1913, ano de sua primeira publicação. Nele é contada a história de Poliana, uma pequena órfã, que enfrenta as inúmeras dificuldades e privações de sua vida, usando o “Jogo do Contente”, que havia aprendido com seu paizinho. Assim, vendo o lado positivo das coisas, ela espalha alegria para todos os moradores da pequena cidade de Beldingsville, onde havia ido morar com sua tia Paulina. O final é lindo e absolutamente comovente. Esta obra obteve tanto sucesso que gerou uma continuação, “Poliana Moça”, tão bem sucedida quanto sua antecessora.
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“A Corrente do Bem” é uma emocionante película norte-americana, preferida por dez entre dez orientadoras educacionais de Escolas de Educação Básica. Dirigida por Mimi Leder, ela conta com um elenco multiestelar, com a presença de astros como Kevin Spacey, Helen Hunt, Haley J. Osment, Angie Dickinson e Jon Bon Jovi.
Nesta pungente história, o professor de Estudos Sociais Eugene Simonet não espera que sua turma daquele ano seja diferente das anteriores. Por isso, ele sugere o mesmo trabalho de sempre no primeiro dia de aula, sem maiores expectativas quanto aos resultados: os alunos têm de pensar num jeito de mudar o mundo e colocar isto em prática.
Porém, um dos alunos, Trevor, resolve levar o trabalho a sério. Com 11 anos de idade e praticamente abandonado pelo pai, ele mora em um bairro pobre de Las Vegas com a mãe, Arlene, uma garçonete que durante dia trabalha em um cassino e, à noite, em uma boate de strip-tease. A partir da idéia de seu professor, Trevor cria a “corrente do bem”, que é baseada em três premissas: fazer por alguém algo que este não pode fazer por si mesmo; fazer isso para três pessoas; e cada pessoa ajudada fazer isso por outras três. Assim, a corrente cresceria em progressão geométrica: de três para nove, daí para 27 e assim sucessivamente.
Com um desfecho extremamente sensível, esta obra-prima do cinema americano consegue mexer profundamente com os corações mais empedernidos.
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Ao lançar seu tradicional disco de fim-de-ano, em 1980, Roberto Carlos brindou-nos com uma de suas canções mais belas e tocantes: "A Guerra dos Meninos". O bonito coral de crianças cantando "la, la, la, la, la, la, la" e versos inesquecíveis como: "De todos os lugares vinham aos milhares/E em pouco tempo eram milhões/Invadindo ruas, campos e cidades/Espalhando amor aos corações/Em resposta o céu se iluminou/Uma luz imensa apareceu/Tocaram fortes os sinos, os sons eram divinos/A paz tão esperada aconteceu/Inimigos se abraçaram e juntos festejaram/O bem maior, a paz, o amor e Deus" transformaram esta linda obra musical em um dos maiores clássicos do cancioneiro popular brasileiro
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Este post é dedicado a todos os homens e mulheres de boa vontade que, em defesa dos bichinhos, das plantinhas e da ética na política, votarão em Marina Silva nas próximas eleições presidenciais. Estes cidadãos e cidadãs de bem provavelmente votaram em Cristovam Buarque no último pleito e, em sua pureza d'alma, acreditam piamente na sinceridade de FHC, Miriam Leitão e Arnaldo Jabor, quanto estes declaram toda a sua simpatia pela candidatura da senadora acreana. Pois, como está escrito nas sagradas escrituras, Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra... Amém.

domingo, 23 de agosto de 2009

Algumas breves abobrinhas.

Nos últimos meses, temos sido bombardeados diariamente com manchetes em todos os veículos de comunicação sobre a “crise ética” do senado. Estes mesmos veículos têm dado grandes espaços para nomes como Arthur Virgílio, Heráclito Fortes, Pedro Simon, Cristovam Buarque, José Agripino Maia, Sérgio Guerra e Demóstenes Torres aparecerem como “paladinos” da ética e da moralidade pública ou como vestais em meio a um bando de putas (estas últimas todas governistas, diga-se de passagem...). Como já escrevi aqui algumas vezes, as minhas memórias e referências são quase sempre literárias ou musicais e, portanto, quando vejo estes nobres tribunos proferirem seus discursos moralistas, com ecos da velha UDN, demonstrando a pureza de suas almas, não posso deixar de lembrar de “A Igreja do Diabo”, um conto do grande Machado de Assis, publicado pela primeira vez, em 1884. Mais de um século depois, o “Bruxo do Cosme Velho” permanece perturbadoramente atual...

Clique neste link , para fazer o download de “A Igreja do Diabo”.

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O que ocorreu no Maracanã, no sábado, não foi um simples jogo de futebol, mas sim uma verdadeira catarse coletiva. Quase 80.000 pessoas em êxtase – batendo todos os recordes de público do ano – não pararam de gritar e cantar o jogo inteiro, declarando o seu amor ao Vasco. E para boa parte dos presentes – eu entre eles – a caminhada a passos largos do time para seu retorno à Série A traz uma outra alegria implícita: a certeza de que o sucesso da equipe – e da atual diretoria – calará de vez as “viúvas” do nefasto Eurico Miranda...

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Outro dia, ouvi no rádio uma bela gravação, ao vivo, da Luiza Possi para “Cantar”, de Godofredo Guedes. Esta canção é tão bonita, quanto singela e já teve algumas gravações (além desta da Luiza) muito interessantes, dentre elas a de Beto Guedes, filho de Godofredo. Porém, a que eu mais gosto é a de um músico, cantor e compositor - e um dos melhores representantes da música produzida no Vale do Jequitinhonha - não muito conhecido fora de Minas Gerais: Paulinho Pedra Azul. Estreando um novo compartilhador e player de músicas, o divshare, socializo-a com vocês.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Sobre a Legislação Anti-Fumo.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Não sou fumante, embora, como quase todo mundo que foi adolescente entre os anos 60 e 80 do longínquo século XX, tenha dado as minhas tragadas, pois afinal naqueles remotos anos fumar era "cool", "cult" e "in". Ser um não-fumante era algo que, inevitavelmente, prejudicava a vida social de um indivíduo, além de – horror dos horrores – interferir negativamente em qualquer possibilidade de sucesso com o sexo oposto. Afinal, estar com um maço de cigarros no bolso era uma espécie de rito de passagem para a idade adulta. Mas, como diz aquele velho poema atribuído a Camões, “todo o mundo é composto de mudança”, e os novos tempos chegaram. Fumar tornou-se “careta” e tal ato passou a ser visto como um verdadeiro atentado à saúde pública, ao mesmo tempo em que se começou a construir uma espécie de “consenso” social contra os fumantes. Assim, estas pobres almas começaram a ser encaradas como responsáveis por boa parte dos males dos tempos (pós?) modernos (Por sinal, aproveito para recomendar o maravilhoso filme “Obrigado por Fumar”, que atira, de forma certeira, em todas direções!) e tal consenso acabou traduzindo-se, nos últimos tempos, em draconianas legislações anti-tabagismo, como as recentemente aprovadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Bem toda esta conversa, é para introduzir um texto que recebi por e-mail, de autoria de um querido colega, Luís Maffei, Poeta e Professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense, que reproduzo aqui com a devida autorização. Mesmo sendo um não-fumante, como registrei no início desta breve introdução, o meu espírito libertário e o meu profundo senso prático – que vive a me advertir sobre como são inócuos os efeitos de qualquer legislação repressiva – me fazem concordar, na íntegra, com as palavras escritas pelo Maffei.

Nas duas principais cidades brasileiras fumar torna-se um ato proibido, a não ser em espaços cada vez mais restritos. Há quem odeie cigarro, perdendo de vista que o ódio costuma ser mais perigoso que o fumo – por exemplo, não sei se Hitler fumava, mas sei que odiava. Hoje em dia, os cidadãos sentem-se no direito de odiar também o fumante. É comum ver, no meio da rua, cenas como alguém, ao passar por outro que esteja fumando, abanar as mãos como fosse vítima de uma grande violência. Caso a violência de fato exista, que efetivamente se tomem medidas para reduzir os cigarros no mundo. O problema é que, além de a questão do fumo ser vista apenas sob o prisma médico – juro que há outros, diversos: o cultural, o econômico, o histórico etc., e o prisma médico é a grande justificativa –, será o cigarro a única violência hodierna e o fumante o único agressor?
Diante do panorama que se nos apresenta, haverá uma severa vigilância cidadã contra o fumante que eventualmente violar a lei que o impede de fumar, por exemplo, numa arena esportiva onde circula bastante ar. O indivíduo que acender seu cigarro será imediatamente alvo de uma polícia sem farda ou pistola, numa espécie de exercício saudável da lei e da intolerância. Aliás, não se tolera o cigarro, não se tolera que alguém dele goste, não se tolera esse alguém. Mas se tolera tanta coisa... Tolera-se álcool. Ainda é cool beber, seja na dimensão sofisticada do bom vinho, seja na dimensão festiva da cerveja. Algo me chama a atenção: beber excessivamente faz mal à saúde, mas se propagandeiam bebidas nas nossas mídias, e sempre num clima de festa. O único senão é dirigir automóveis, mais nenhum. Desse modo, toleram-se, em geral, os bêbados, e mais ainda num país que tanto respeita certo poeta que quer “o lirismo dos bêbedos”. Não se pode beber em arenas esportivas. O indivíduo que conseguir tomar sua cerveja num estádio decerto não será alvo de nada. “É a vida”, escreveu o mesmo poeta.
Então está tudo bem, não é? Ainda no caso da bebida, certa companhia passou a chamar seus consumidores por um adjetivo que liga os consumidores ao nome da companhia. Tudo bem. Há qualquer coisa que permite que se beba com tanta tolerância e enfrenta o cigarro de modo totalitário. Sim, totalitário, violento, monossêmico e pouco inteligente, como nossa sociedade tem costumado ser. Como é tratado o indivíduo que coloca o volume do som de seu carro em um nível insuportável e sai pela rua desfilando sua sei-lá-o-quê? Com tolerância. E isso é proibido pelas leis de trânsito, e isso se vê com cada vez mais frequência. Mas se tolera. Volto à cena do abano das mãos: o sujeito que passa por alguém que fuma é vítima de alguma violência? E o que ouve os sons a que o submete o citado motorista? Está realmente tudo bem, não é?
Há essas e outras tantas violências por aí, mas tudo bem, que se impeça maciçamente o consumo do cigarro. É realmente melhor para as consciências que uma vítima seja escolhida e executada. O resto? Tudo bem com o resto, e que se beba, se liguem sons... Nós, fumemos ou não, continuaremos, tudo bem, ouvindo o que vem (sabem o que costuma vir, não?) de certos automóveis, achando líricos os bêbados (mesmo que eles agridam gente na rua, tudo bem), pensando que odiar e banir um único hábito resolve um bocado de nossos problemas. Falta muito pouco para nossa definitiva felicidade social.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Outros Drops.

Sempre que eu escrevo algum post com referências musicais ou quero compartilhar alguma canção com os leitores do "Abobrinhas", costumo utilizar o site de compartilhamento de músicas "MP3Tube", que recentemente mudou de nome para "Yehplay". No entanto, há alguns dias parece que ele saiu do ar (definitivamente?), pois quando digita-se o endereço da sua página, automaticamente ocorre o redirecionamento para um site de jogos. Com isto, as músicas linkadas em vários dos meus textos no "Abobrinhas" - inclusive em um dos últimos, "Qualquer Música, Uma Certa Canção..." - não estão mais acessíveis, como se pode notar pelo "sumiço" do Player do MP3Tube nos posts. Preciso encontrar, com urgência, um outro site do gênero. Assim que o fizer, recoloco as músicas.
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Anteontem, assistindo ao "Jornal da Globo", fiquei absolutamente atônito (mas não surpreso!)com o lobby feito pela emissora da Família Marinho em favor da empresa norte-americana Boeing, no processo de compra de novos caças para a Força Aérea Brasileira. Mencionando, muito de passagem, o nome das outras empresas que disputam a concorrência, a Saab (Suécia) e a Dassault (França), o programa fez uma longa reportagem mostrando as vantagens do Caça Super Hornet, da fabricante norte-americana, e as intenções da Boeing em transferir tecnologia para o Brasil, seguindo "orientações" do governo Obama. Tudo isto, com direito a uma longa entrevista de William Waack, com um dos diretores da empresa. Enfim, propaganda pouca é bobagem. E viva a nossa imprensa livre, isenta e imparcial...
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Acordei hoje, não sei por qual motivo, com um poema na cabeça, "Viver sempre também cansa", do poeta português José Gomes Ferreira. Escrito em 1931, ele permanece profundamente atual. É só substituir o nome de Mussolini pelo de algum líder político contemporâneo que se caracterize pela escrotidão e pelas tendências fascistóides. Tenho certeza que não faltarão candidatos...

Viver sempre também cansa
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
Ora é azul, nitidamente azul,
Ora é cinzento, quase verde
Mas nunca tem a cor inesperada

O mundo não se modifica
As árvores dão flores
Folhas, frutos e pássaros
Como máquinas verdes

As paisagens também não se transformam,
Não cai neve vermelha
Não há flores vermelhas que voem
A lua não tem olhos
E ninguém vai pintar olhos à lua

Tudo é igual, mecânico e exacto

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem, riem e digerem.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
Discursos de Mussolini
Guerras, orgulhos em transe,
Automóveis na corrida.

Pois não era mais humano
Morrer por bocadinho,
De vez em quando,
E recomeçar depois,
Achando tudo mais novo?

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
Morrer em cima de um divã
Com a cabeça sobre uma almofada,
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
Havias de dizer com teu sorriso
Onde arde um coração em melodia,
“Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela”

E virias depois, suavemente,
Velar por mim, subtil e cuidadosa
Pé ante pé, não fosses acordar
A Morte ainda menina no meu colo.
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Trilha Sonora do Dia: "Famous Blues Raincoat", de Leonard Cohen.
Infelizmente, sem o MP3Tube para compartilhá-la...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Drops de Sabores Variados.

É muito interessante a ética seletiva de setores da classe “mérdia” - são os velhos fantasmas udenistas que insistem em continuar nos assombrando – e da mídia que “forma” a sua opinião. Se há toda uma enorme indignação – com todos os motivos, por sinal - em relação aos atos praticados pelo velho oligarca Sarney, por que este mesmo sentimento não existe em relação a uma série de outras situações que listo abaixo?

1-Os jatinhos que o senador Tasso Jereissati freta com dinheiro público;
2- O funcionário-fantasma do gabinete do senador Arthur Virgílio que recebeu salários durante um ano, mesmo morando na Espanha;
3- A viagem da filha do Fernando Gabeira ao Havaí, utilizando a cota de passagens da Câmara de Deputados e a contratação da empresa da mulher do deputado verde para lhe prestar serviços na montagem de um site, utilizando a verba de representação de seu gabinete;
4- O fato de Luciana Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique, ter sido funcionária-fantasma do gabinete do Senador Heráclito Fortes;
5- A utilização da cota de passagens da ex-senadora Heloísa Helena por seu filho e por dois militantes do PSOL, mesmo depois da “combativa” parlamentar ter encerrado o seu mandato.

Sei não, mas esta história de “Fora Sarney!” está parecendo mais “Cansei II: A Missão”...
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Estou ouvindo agora o disco “Nouvelle Cuisine” (1988) da banda paulista do mesmo nome. Como ele nunca foi lançado em CD, estava pensando em levar o meu velho vinil para convertê-lo , mas antes tive a idéia de ver se alguma alma caridosa já não tinha feito isto e o estava compartilhando na grande rede. Não deu outra: alguém (God Bless You!) converteu todas as faixas do “bolachão” para o formato mp3 e ainda se deu ao trabalho de copiar a capa e o encarte do disco, disponibilizando tudo isto em formato rar. Quem quiser curtir excelentes interpretações de standards do Jazz é só acessar o link abaixo e fazer o download do arquivo.
O glorioso Vasco da Gama finalmente conseguiu chegar a vice-liderança da série B do Brasileirão e, dependendo da combinação de resultados, pode terminar esta rodada em primeiro lugar. O problema é que a irregularidade tem sido a marca da equipe na competição: quando parece que o time vai engrenar, ocorre um daqueles tropeços injustificáveis. De qualquer forma, amanhã estarei em São Januário para assistir a estréia do Aluísio Chulapa e para cantar um dos mais belos cantos de torcida – “Vou torcer pro Vasco ser campeão/São Januário, meu caldeirão” – que utiliza a melodia de um dos clássicos do Rock Brasil, “Bebendo Vinho”, composto pelo Vander Wildner e gravado pelo Ira!

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É absolutamente imperdível a Exposição “Virada Russa” que está em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro, até o dia 23 de agosto. Nela estão presentes diversas obras pertencentes ao acervo do Museu Estatal de São Petersburgo, que constituem uma amostra bastante representativa da produção das vanguardas artísticas russas das primeiras décadas do século XX. Ficar frente a frente com um Chagall ou um Kandinsky é algo indescritível. Porém, a tela que mais me marcou foi “A Guerra Alemã”, de Pável Filónov. É a “Guernica” da Primeira Guerra Mundial.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Qualquer música, uma certa canção...

Qualquer Música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!
(Fernando Pessoa)

Posso dizer que cresci jogando bola (mal), devorando livros e ouvindo muita música. Uma das minhas lembranças mais antigas é a da minha mãe cantarolando as velhas canções portuguesas da sua juventude – “Ai, Mouraria/da velha Rua da Palma,/onde eu um dia/deixei presa a minha alma...” -, enquanto fazia os trabalhos domésticos. Na minha infância, lembro da minha irmã - na época já uma adolescente - ouvindo nas Rádios AMs (Rádio FM ainda era novidade!!) os sucessos do pop internacional da década de 1970 – Elton John, Abba, Paul McCartney, Bread, Bee Gees – e daquela música romântica brasileira, com ecos da Jovem Guarda – A benção, São Odair José -, que posteriormente foi chamada pejorativamente de “Brega”. Ao mesmo tempo, através de meu irmão mais velho, entrava em contato com a música negra e com o Rock – o que me marcou definitivamente – e passei a ouvir de Beatles a James Brown, de Rolling Stones a Ottis Redding, de Animals a Led Zeppelin. Até hoje, ainda guardo muitos discos de vinil (LPs e compactos) desta época, apesar de há algum tempo não ter mais toca-discos. Afinal, que CD consegue superar aqueles maravilhosos encartes que acompanhavam os Long Plays das grandes bandas de Rock? No início da adolescência, mais uma vez indo na onda do meu irmão (então um típico universitário politizado do início dos anos 80), comecei a curtir também MPB e “descobri” Chico, os baianos, Ednardo, Belchior, Zé Ramalho, Paulinho da Viola, Tom, Elis, Vinícius e etc..., mas sem deixar de lado a paixão pelo velho Rock and Roll, o que explica, com certeza, a minha admiração adolescente pelo Raulzito, que funcionava como uma ponte entre os dois gêneros. Já mais velho, descobri o Jazz e literalmente pirei com John Coltrane, Duke Ellington e Charlie Parker. Quase que simultaneamente, fiz algumas “redescobertas” como as do samba e do choro e, também, da música portuguesa, que a partir da década de 1970 renovou-se, reinventando a tradição, e produziu nomes extraordinários como Zeca Afonso, José Mário Branco, Trovante e, mais recentemente, Mísia e Mafalda Arnauth. Também expandi meus horizontes geográficos-musicais e descobri a música de lugares tão distintos como Cabo Verde (Salve, Cesária!), Mali, Irlanda (God bless Chieftains), Galícia, Grécia ou Cuba. Assim, com o passar dos anos, fui erguendo inúmeros altares a “divindades” diversas em meu panteão musical particular: Jethro Tull, Joy Division, Cartola, Billie Holiday, Nelson Cavaquinho, Mahler, Pixinguinha, Madeleine Peyroux, Jimi Hendrix, Silvio Rodriguez, Silas de Oliveira, Bessie Smith, Bob Dylan, Paco de Lucia, Janis Joplin, Violeta Parra, Gentle Giant, Echo and the Bunnymen, Kris Kristofferson, Leonard Cohen, Velvet Underground, Noel Rosa, Stravinsky, Violeta de Outono, Paco de Lucia, Eric Clapton, Belle and Sebastian, Neil Young, Chet Baker, The Jam, Ramones, Wagner, Mutantes, Cream, Locanda delle Fate, John McLaughlin, Zeca Baleiro, Elomar, Deep Purple, Quaterna Requiem, Cream e inúmeros outros. Bem, fiz toda esta longa digressão – ou masturbação mnemônica, se preferirem – para dizer que, embora seja absolutamente fissurado por centenas de canções dos mais variados gêneros, existe uma que – sei lá por que cargas d’água – me deixou completamente fascinado desde a primeira vez que a ouvi, ainda na adolescência. É a "minha" música. É a canção que eu quero que meus amigos ouçam, depois do meu velório (que espero que ainda demore algumas décadas para acontecer!), quanto estiverem bebendo à minha memória, em um boteco qualquer da Lapa ou do subúrbio. Chama-se "You Can't Always Get What Your Want" e está em um dos melhores álbuns dos Rolling Stones, "Let it Bleed", lançado no final de 1969.

The Rolling Stones - You Can't Always Get What You Want (Version 2)