quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Mas as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão.

Para fechar neste blog - espaço de minhas "viagens" e idiossincrasias -, o difícil e complicado ano de 2008, resolvi postar alguns dos mais belos versos escritos por um dos maiores poetas desta língua pela qual sou apaixonado, Carlos Drummond de Andrade, cujos poemas, desde a minha infância (juntos com os de Pessoa, de Sophia, de Bandeira e de tantos outros), têm sido meus companheiros de todas as horas. Adeus, 2008! E que 2009 seja um ano "onde a dor não tem razão"!

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

And so this is christmas...

Desde bem garoto, percebo que o Natal se aproxima devido a alguns sinais: as rádios começam a tocar “Happy Xmas” – a original, com o próprio John Lennon ou a indefectível versão em português, com a Simone -, a Rede Globo começa a pôr no ar os seu tradicionais – e muito chatos – comerciais de fim-de-ano (“hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa...”) e a anunciar o especial do Roberto Carlos, os grandes bancos fazem comoventes anúncios em que se apresentam quase que como instituições de caridade e a palavra “solidariedade” passa a freqüentar a boca de alguns dos mais execráveis representantes da espécie humana. Confesso que, a cada ano que passa, tenho menos paciência para estas coisas. Esta alegria forçada e este “espírito natalino” imposto - traduzidos na lógica do “consuma, consuma e o que sobrar dê aos pobres”- me indignam cada vez mais. Deve ser a idade: os quarenta anos começam a pesar. Será que é tão complicado perceber que “solidariedade” não é sinônimo de “esmola”, que a ação contra as desigualdades deve ser permanente e durar o ano todo - e todos os anos - e que isto passa necessariamente pela prática política, no mais nobre sentido dessa palavra tão prostituída? Ah, sei lá. Só sei que uma das melhores definições deste nosso Natal consumista foi dada em forma de poema pelo poeta português António Gedeão (1906-1997). Reproduzo-o abaixo:

Dia de Natal

Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopéia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya.

Há quase cinquenta anos, Jorge de Sena (1910-1978), um dos maiores poetas portugueses do século XX, escreveu uma belíssima carta-poema intitulada "Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", a partir do quadro "El tres de mayo", pintado em 1814 por Francico Goya. Hoje, ao findar 2008, os seus versos permanecem tristemente atuais em um mundo onde estão ocorrendo atualmente, pelo menos, catorze conflitos armados de grandes proporções. Não pude deixar de pensar nesta carta-poema neste momento em que o ano termina e em que o "Espírito Natalino" se apresenta como sinônimo de consumo e não de solidariedade. Assim, os desejos de Jorge de Sena para seus filhos são os de todos nós que acreditamos que resistir é possível e preciso.

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós.
Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.

E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.

Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente à secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»

Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.

Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos.

Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.

Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho.

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá.

Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão.

Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?

Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã».

E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.


Lisboa, 25/6/1959

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

C.R. Vasco da Gama: Uma Elegia.


Em 1923, um modesto clube de futebol suburbano, que havia acabado de subir para a Primeira Divisão, sagrou-se campeão carioca derrotando os grandes clubes de então. No entanto, havia algo no C.R. Vasco da Gama que o diferenciava de seus oponentes: enquanto os times que disputavam a divisão principal eram formados basicamente por jovens da elite carioca, o Vasco chegava ao campeonato com uma equipe formada fundamentalmente por jogadores negros e operários, recrutados nos campos de várzea dos subúrbios do Rio de Janeiro. Em 1924, a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos, que organizava o campeonato carioca naquela época e que era controlada pelos grandes clubes, impôs uma série de condições esdrúxulas para que o Vasco pudesse continuar a disputar a Primeira Divisão. Dentre as alegações da AMEA estavam a de que o clube não possuía um estádio em boas condições e a de que sua equipe era formada por jogadores de “profissões duvidosas”. No entanto, o “acordo” proposto pelo presidente da Associação para que o Vasco pudesse disputar o torneio deixou bem claro quais eram os reais motivos da exclusão do clube: a AMEA queria que o Vasco afastasse da sua equipe um total de 12 jogadores, não coincidentemente os negros e operários. Ao recusar-se a cumprir esta exigência, o presidente do C.R. Vasco da Gama escreveu uma das mais belas páginas da história do futebol brasileiro, reiterando uma postura democrática e anti-racista existente no clube desde a sua fundação (ainda como clube de regatas), que ficou demonstrada com a primeira eleição de um não-branco para a presidência de um clube esportivo no Brasil (o mulato Cândido José de Araújo, em 1904). Em 1925, em resposta aos argumentos que levaram à sua expulsão da AMEA, o Vasco iniciou uma campanha popular para arrecadação de fundos – os principais colaboradores foram os comerciantes portugueses e o povo pobre dos subúrbios – que lhe permitiu comprar um terreno e construir aquele que foi, por alguns anos, o maior estádio da América Latina: São Januário.
Muitos anos depois, por volta de 1973 ou 74 , um garoto da periferia, então com seus 4 ou 5 anos, decidiu, do nada, que seu time era o C.R. Vasco da Gama (apesar das pressões de algumas pessoas da família que o queriam Flamengo). Destino? A força do DNA lusitano? Uma inconsciente percepção infantil do que representava aquele clube? Sei lá. Só sei que hoje, trinta e tantos anos mais velho, com algumas cicatrizes na alma e bem menos cabelo sobre a cabeça, esta escolha continua a me marcar profundamente. Assim, costumo dizer que torcer pelo Vasco é, acima de tudo, uma opção ideológica.
Bem, por que lembrar de tudo isto? Porque este clube de tantas glórias acaba de cair para a série B do Campeonato Brasileiro, naquele que a grande mídia vem descrevendo como o “momento mais triste” de sua história. Porém, na verdade, esta queda só simboliza o ponto final de um longo ciclo, este sim, que constituiu-se no período mais triste e obscuro da existência do clube: a era Eurico Miranda. Por isto, quem sabe, esta queda seja necessária para expiar o clube e purificá-lo, depois de anos de desmandos, truculência e autoritarismo. Choramos nós, torcedores. Mas quem sabe não sejam os desígnios dos Deuses do futebol que desçamos à escuridão do Hades para, a seguir, reconquistarmos a glória?