Acabo de assistir "Só dez por cento é mentira", a "desbiografia" oficial de Manoel de Barros. Êxtase total. Dizer o que? Recorro então ao próprio Manoel:
A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios.
Em postagens anteriores, já comentei que os sinais de que o final dos tempos está próximo são bem visíveis para quem os quiser ver. Mas pensando bem, é até interessante que o mundo realmente acabe em 2012: só de imaginar que não vamos ter de aturar a histeria e as patriotadas do Galvão Bueno durante a Copa de 2014 – que seriam elevadas à décima potência, já que a competição está marcada para o Brasiiiiiiiiiillllllll -, a possibilidade do apocalipse até que passa a ser uma hipótese bastante atraente!
Por outro lado, é extremamente frustrante perceber que os dias derradeiros estão a acontecer justamente no momento em que o Brasil começa a dar certo e a entrar para a Primeira Divisão do Sistema Internacional. Isto é olho gordo! Dá até para desconfiar que alguns desses maias migraram da mesoamérica para o estuário do Prata e se constituíram nos antepassados de um povo que até hoje habita a região e que cultua um estranho e volumoso deus chamado Maradona!
Porém, enquanto 21 de dezembro de 2012 não chega, eu fico aqui em meu bunker anti-aéreo, localizado neste balneário singular que será tragado pelo Oceano Atlântico, com um copo de cerveja na mão (e várias garrafas no chão), ouvindo o que meu profeta favorito – o velho Raulzito – andou dizendo sobre esta questão. Nestes tempos conturbados que antecedem a chegada da besta do apocalipse, aproveito tais instantes de meditação para pedir ao Senhor que me dê paciência para aturar as bestas cotidianas que vivem a encher o meu saco continuamente...
Na foto acima, podemos ver dois grandes comediantes da televisão brasileira.
O insigne e erudito Prof. Hariovaldo de Almeida Prado continua angariando cada vez mais discípulos entre as “celebridades” de um certo país exótico ao sul do Equador. Depois de FHC, Caetano Veloso, Demétrio Magnoli e Marcelo Madureira, foi a vez do ex-comunista e neokardecista Carlos Vereza reafirmar sua condição de aplicado seguidor do velho mestre. Comentando o texto de Luiz Fernando Veríssimo sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos, reproduzido em diversos jornais brasileiros na última quinta-feira, o ilustre ator global escreveu a seguinte pérola nas “Cartas dos Leitores” de “O Globo” de ontem, dia 23/01:
Finalmente o colunista Luiz Fernando Veríssimo (21/1) saiu do muro lulista, onde sempre esteve, abandonou por instantes Proust e seus biscoitos, e defendeu – com um ardor de corar o mais empedernido bolchevista – o Programa Nacional de Direitos Humanos 3, que é mais uma tentativa totalitária petista de cercear a liberdade de expressão no país. Nada mais lamentável do que ver um intelectual de sua estatura transformar-se em um rebelde a favor.
Conhecido por seu enorme talento como comediante - suas histriônicas entrevistas no "Programa do Jô" e suas hilárias participações nos programas eleitorais do César Maia se incluem, com certeza, entre os melhores momentos da história do humor nacional -, Vereza se superou ao encarnar, novamente, o papel de porta-voz do mais agressivo reacionarismo pátrio. O nobre Prof. Hari deve estar com o peito inflado de orgulho por conta da verve anti-comunista e desse discurso dos tempos da Guerra Fria de um de seus mais diletos pupilos!
Aliás, ouso até dizer que o discípulo está em vias de superar o mestre...
Acho que foi por volta de 1979, quando eu tinha 10 para 11 anos de idade, que ouvi no rádio "Sultans of Swing" pela primeira vez. A música causou-me, de cara, um tremendo impacto: senti-me em um oásis no meio do deserto, ao ouvir aquela guitarra limpa e vigorosa em plena onda “Disco”. Afinal, para um pré-adolescente roqueiro, aquela febre Dancin’ Days era um tremendo pé-no-saco. Por causa da voz e do jeito de cantar do Mark Knopfler, achei, a princípio, que era uma música nova do Bob Dylan – que eu conhecia e curtia por influência de meu irmão mais velho -, mas descobri logo que se tratava de uma banda sobre a qual eu nunca tinha ouvido falar chamada Dire Straits. Com a grana da mesada, comprei o compacto simples – putz, como eu estou velho! – e aquela música começou a tocar sem parar na minha vitrola Philco (realmente sou uma criatura jurássica!). Lembro-me da minha mãe – uma portuguesa típica cujas grandes referências musicais eram o Fado, Roberto Leal e Roberto Carlos e que achava que rock e barulho eram a mesma coisa – rendendo-se ao talento de Mr. Knopfler e comentando: “Nossa, esta guitarra parece que está chorando”. Depois de quase furar o compacto, acabei comprando o LP que continuou a tocar sem parar (agora já em um “Três em Um” da National!) no meu quarto. Desde então, ouvi milhares de vezes essa canção - tanto a versão original, quanto as inúmeras gravações ao vivo - em todas as novas mídias que foram aparecendo ao longo desses anos. Ontem, quando eu voltava para casa, “Sultans of Swing” começou a tocar no rádio do carro. Percebi, então, que mais de três décadas depois, eu continuo a ter – logo que escuto os seus primeiros acordes - as mesmas sensações e o mesmo sentimento que tive, lá no final da minha infância, ao ouvi-la pela primeira vez...
Curta aqui uma gravação ao vivo de “Sultans of Swing”, em um programa da TV britânica, no ano de seu lançamento (1978):
André Dahmer, "The Botika Hotel", janeiro de 2009.
Segunda à noite, num botequim em Botafogo, eu, a Vê e o André Dahmer jogávamos conversa fora sobre quadrinhos, projetos e inúmeras coisas mais, quando no meio do papo surgiu – mencionado pelo André - o nome do Botika. Poeta, músico, compositor e romancista, o cara é, nas palavras do Dahmer (que gosta tanto dele que já postou no Blog dos Malvados um desenho - que reproduzo acima – em homenagem à figura!), um puta talento. Chegando em casa, depois de muitas cervejas, fui procurar no You Tube o vídeo de uma canção do Botika, “Mais de Uma Janela”, gravada pelo Qinho (da banda Vulgo Qinho & Os Cara) e muito elogiada pelo André. Realmente a música é bem legal, com um refrão que gruda nos ouvidos, uma melodia gostosa e uma letra aparentemente despretensiosa, mas com altas sacações. Além disso, o vídeo também ficou muito interessante, com suas imagens fragmentadas e várias referências visuais - concretas e simbólicas - a janelas. Porém, confesso que não gostei muito desta gravação: a música merece um registro melhor – fora do já batido “Voz e Violão” - e um arranjo mais elaborado. Mas o André tem razão: o cara é realmente bom! Já encomendei em uma livraria virtual um exemplar de “Uma Autobiografia de Lucas Frizzo”. Estou curioso para ver (e ler) como é o Botika romancista.
Quando eu nasci/ um anjo louco, muito louco/ veio ler a minha mão/ não era um anjo barroco/ era um anjo muito louco, torto/ com asas de avião/ eis que esse anjo me disse/ apertando a minha mão/ com um sorriso entre os dentes:/vai, bicho, desafinar/ o coro dos contentes/vai, bicho, desafinar/ o coro dos contentes/let's play that. ("Let's Play That" - Torquato Neto/Jards Macalé)